Lá se pensam, cá se fazem.

FRUTA FEIA

Cerca de metade da comida produzida no mundo cada ano vai para o lixo. [1] Segundo a FAO, o actual desperdício alimentar nos países industrializados ascende a 1,3 mil milhões de toneladas, suficientes para alimentar as cerca de 925 milhões de pessoas que todos os dias passam fome. [2, 3] Este desperdício tem consequências não apenas éticas mas também ambientais, já que envolve o gasto desnecessário dos recursos usados na sua produção, como terrenos, energia e água - cerca de 550 mil milhões de metros cúbicos de água empregados anualmente na produção de alimentos são delapidados. [1] A somar a estes impactos ambientais está também a contribuição para as alterações climáticas, já que a decomposição dos alimentos que não são consumidos resulta na emissão de dióxido de carbono para a atmosfera, estimada em 170 Mt de CO2 eq./ano só na Europa, e de metano, cujo efeito de estufa é 21 vezes mais potente que o do dióxido de carbono. [3] Para fazer face a este problema e definir medidas concretas que permitam reduzir o deperdício alimentar para metade até 2025, o Parlamento Europeu aprovou uma recomendação ao Conselho Europeu e à Comissão Europeia para proclamar 2014 o «Ano Europeu contra o Desperdício Alimentar». [3, 4] Só em Portugal, são desperdiçadas um milhão de toneladas de alimentos por ano - 17% do que é produzido pelo país - de acordo com as conclusões do PERDA apresentadas em Dezembro de 2012. [5] Os motivos para este desperdício são vários e ocorrem ao longo de todos os elos da cadeia agro-alimentar. Modelos de produção intensivos, condições inadequadas de armazenamento e transporte, adopção de prazos de validade demasiado apertados e promoções que encorajam os consumidores a comprar em excesso, são algumas das causas que contribuem para o enorme desperdício actual. Outro problema é a preferência dos canais habituais de distribuição por frutas e legumes “perfeitos” em termos de formato, cor e calibre que acaba por restringir o consumo aos alimentos que respeitam determinadas normas estéticas. Esta exigência resulta num desperdício de cerca de 30% do que é produzido pelos agricultores. [3] FRUTA FEIA surge da necessidade de inverter tais tendências de normalização de frutas e legumes que nada têm que ver com as questões da segurança e da qualidade alimentar. Através da criação de uma cooperativa de consumo, o projecto FRUTA FEIA tem como objectivo principal canalizar essa parte do desperdício alimentar até aquele consumidor final que não julga a qualidade por factores de aparência. Assim, à cooperativa chegará directamente dos agricultores da região – alvo deste problema e parceiros do projecto – a parte da sua produção fruto-hortícola que por defeitos estéticos não encontra escoamento possível através dos grandes distribuidores. Esta fruta e legumes poderão ser adquiridos pelos sócios da cooperativa a um preço mais baixo que os da fruta normalizada vendida nos locais habituais, num espaço que estará aberto uma vez por semana para esse efeito em Lisboa. Partindo da experiência embrionária da constituição da Cooperativa FRUTA FEIA em Lisboa, e de maneira a disseminar este modelo de consumo a uma escala nacional, será desenvolvida uma base de dados online e interactiva – Plataforma FRUTA FEIA – onde se poderão registar produtores e consumidores que pretendam replicar este modelo de cooperativa de consumo noutras regiões do país. Por fim, paralelamente ao desenvolvimento da Cooperativa e da Plataforma, serão realizadas diversas acções (como workshops, debates e visitas às explorações agrícolas) com vista a sensibilizar a população para a actual problemática do desperdício alimentar e para o facto de que fruta feia não é lixo. Estas acções serão acompanhadas de uma forte campanha de comunicação e de publicidade à alternativa de consumo que aqui se pretende constituir e que irá encher redes sociais e elementos móveis (como t-shirts, sacos e carrinhas) com o slogan Eu compro FRUTA FEIA! _____________________ [1] Institution of Mechanical Engineers: Global Food; Waste not, Want not. Londres, Janeiro 2013 [2] Food and Agriculture Organization (FAO) das Nações Unidas e Swedish Institute for Food and Biotechnology (SIK): Global Food Losses and Food Waste – Extent causes and prevention (Study conducted for the International Congreso SAVE FOOD!). Roma, Maio 2012 [3] Resolução do Parlamento Europeu de 19 de janeiro de 2012, sobre como evitar o desperdício de alimentos: estratégias para melhorar a eficiência da cadeia alimentar na UE [4] Fédération Européenne des Banques Alimentaires (consultado dia 14.03.2012): http://www.eurofoodbank.eu/portail/ [5] Projecto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar (PERDA): Do Campo ao Garfo - Desperdício Alimentar em Portugal. Lisboa, Dezembro 2012

Isabel Soares

Visionário
Barcelona, Espanha

Inês Ribeiro

Facilitador
Lisboa, Portugal

Francisco Gonçalves

Facilitador
Lisboa, Portugal

Sara Silva Santos

Comunicador
Barcelona, Espanha

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